A economia dos Estados Unidos acaba de entrar em um novo território de imprevisibilidade após a Suprema Corte do país anular uma série de tarifas globais impostas pela administração de Donald Trump. O veredito, fundamentado na interpretação de que o Executivo excedeu seus poderes ao utilizar uma lei de emergência de 1977 para taxar importações, não é apenas uma derrota política para a Casa Branca; é um choque sísmico que altera a dinâmica de preços e o planejamento estratégico das corporações norte-americanas para o restante de 2026.
Enquanto o mercado financeiro tenta precificar o fim dessas taxas, o Federal Reserve (Fed) observa o cenário com uma mistura de otimismo cauteloso e preocupação estrutural. Austan Goolsbee, presidente do Fed de Chicago e uma das vozes mais respeitadas na formulação da política monetária atual, trouxe à tona uma análise provocativa: a derrubada das tarifas pode ser o “remédio amargo” que faltava para domar a inflação, mas o custo pode ser a paralisia dos investimentos privados devido à insegurança jurídica.
O Fator Incerteza: Por que o fim das tarifas preocupa as empresas?
À primeira vista, a remoção de barreiras comerciais é vista como um movimento pró-mercado. No entanto, na economia real, a previsibilidade vale tanto quanto o capital. Para Goolsbee, o maior risco atual não é a tarifa em si, mas a oscilação constante das regras do jogo. Quando a Suprema Corte invalida políticas que já estavam integradas às cadeias de suprimentos, as empresas entram em um modo de “esperar para ver”.
Este fenômeno, descrito pelo chefe do Fed de Chicago como a dinâmica de “pouca contratação e pouca demissão”, é um subproduto direto da incerteza empresarial. Se uma indústria não sabe se o insumo importado será tributado em 25% hoje ou em 0% amanhã — ou se o governo encontrará uma nova brecha legal para reimpor a taxa em três meses — ela interrompe planos de expansão. Esse congelamento na movimentação de pessoal e capital acaba consolidando uma estagnação que dificulta a leitura dos dados econômicos pelo Federal Reserve.
O Alívio Inflacionário e a Meta de 2%
Apesar do caos administrativo, há um “lado positivo” para o consumidor americano. As tarifas de Trump, desenhadas para proteger a indústria nacional, funcionavam na prática como um imposto sobre o consumo, elevando os preços de tudo, desde componentes eletrônicos até materiais de construção. Com a anulação dessas taxas, espera-se um efeito deflacionário imediato em diversos setores.
Goolsbee admite que esse cenário “poderia trazer alívio para o lado da inflação”, algo crucial em um momento onde o núcleo dos preços (Core CPI) encerrou dezembro em 3%, acima das expectativas de Wall Street. Para o Fed, que persegue obstinadamente a meta de 2%, qualquer vetor que pressione os preços para baixo é bem-vindo. Entretanto, o banco central americano é enfático: um mês de dados positivos não altera a rota. A autoridade monetária exige ver um progresso real e sustentável em múltiplos componentes da cesta de consumo antes de declarar vitória sobre a carestia.
Calendário de Juros: O que esperar de 2026?
A trajetória dos juros nos EUA tornou-se um quebra-cabeça complexo. Após um ciclo de cortes agressivos em 2024 (1 ponto percentual) e três reduções no fim de 2025, o Fed adotou uma postura de “pausa estratégica” em janeiro e março de 2026.
Abaixo, detalhamos as projeções atuais do mercado e a visão de Goolsbee:
| Período | Expectativa de Mercado | Postura de Austan Goolsbee (Fed Chicago) |
| Março 2026 | Manutenção das taxas | Foco na evidência de resfriamento |
| Junho 2026 | Possível corte de 0,25 p.p. | Dependente de progresso real na inflação |
| Segundo Semestre 2026 | Mais um corte (totalizando 2 no ano) | Otimismo para “múltiplos” cortes se a meta de 2% se aproximar |
Goolsbee argumenta que, se a inflação persistir próxima dos 3%, as taxas de juros atuais podem não estar sendo suficientemente restritivas para desacelerar a demanda. Por outro lado, se a queda das tarifas acelerar a convergência para os 2%, o Fed terá o espaço necessário para ser mais agressivo na flexibilização monetária no final do ano e ao longo de 2027.
Contexto Geopolítico e Jurídico: A Batalha de Washington
O governo Trump não aceitou a decisão da Suprema Corte passivamente. A equipe jurídica da Casa Branca já busca novas vias legais para reimpor as taxas, tentando desvincular as tarifas da lei de emergência de 1977 e buscando fundamentos em outras prerrogativas de segurança nacional ou comércio internacional.
Essa queda de braço entre os Poderes Executivo e Judiciário cria um ambiente de volatilidade para o dólar e para os parceiros comerciais dos Estados Unidos. Países exportadores, que viam o mercado americano se fechar sob o protecionismo, agora veem uma janela de oportunidade, ainda que obscurecida pela possibilidade de novas sanções administrativas.
Conclusão: O Equilíbrio entre Preço e Crescimento
O cenário desenhado por Austan Goolsbee aponta para um paradoxo econômico: o que é bom para o controle da inflação no curto prazo (a queda das tarifas) pode ser prejudicial para o crescimento econômico no longo prazo devido à insegurança institucional.
Para o investidor e para o cidadão comum, a mensagem é de vigilância. O Fed permanece em “modo de espera”, e a política monetária de 2026 será ditada menos por ideologias e mais pela capacidade da economia americana de absorver esses choques jurídicos sem perder o fôlego da geração de empregos. Se o alívio nos preços se confirmar, poderemos ver um final de ano com crédito mais barato; caso contrário, a incertezatratará de manter os juros elevados por mais tempo do que o mercado gostaria de admitir.
As informações têm como base apuração publicada pelo portal: InfoMoney
